É preciso honrar nosso “mandato”
A Ufes, apesar das deficiências de infra-estrutura comuns às universidades públicas, pode ser um espaço de formação de profissionais capazes de obter destaque pelo país. Um exemplo é Iluska Coutinho, formada em jornalismo (1993) e hoje doutora em comunicação pela UMESP.Em entrevista por email, ela, hoje professora na Universidade Federal de Juiz de Fora, conta que se considera uma pessoa realizada profissionamente e que soube aproveitar as oportunidades ao seu redor.
por Davi Gentilli, Ezequiel Vieira e Gabriely Sant Ana
De que maneira a universidade contribuiu em sua formação profissional?
O contato com o ambiente universitário oferece oportunidade de crescimento em todos os níveis, desde que a pessoa tenha interesse em estabelecer trocas e se aprofundar nos estudos. Talvez por isso tenha optado por retornar à universidade e me dedicar exclusivamente a ela. Durante minha experiência como estudante também tive oportunidade de atuar em projetos de extensão, de monitoria e de iniciação científica. Dizer exatamente o que permanece, com a precisão exigida de um jornalista, é um desafio ao qual não me arrisco. Apesar disso é fundamental destacar que durante a graduação tomei contato com outras possibilidades do fazer jornalístico fora das redações.
Como surgiu o seu interesse por jornalismo?
Sou filha de jornalista e o tal ditado popular sempre foi uma espécie de indicativo do caminho a seguir. Apesar disso fiz o segundo grau técnico em Eletrotécnica (na então ETFES) e durante os dois primeiros anos do curso acreditei que me tornaria engenheira. Mas, com o final do curso técnico e o contato com mais disciplinas específicas, vi que aquilo não era para mim. Procurei então os cursos que despertavam meu interesse e fiquei dividida entre direito e jornalismo até o último dia da inscrição. Nessa época, pesavam contra a escolha pela comunicação as decepções profissionais percebidas no cotidiano de meu pai e as limitações de ganho financeiro. Mas no final não deu outra, optei por jornalismo e me considero uma pessoa profissionalmente realizada.
São poucos os que escolheram a carreira acadêmica e menor ainda é o número dos que fizeram doutorado em comunicação. O que a motivou a escolher uma sala de aula e não uma sala de redação?
Na verdade durante muito tempo acreditei que não era preciso estabelecer essa cisão. Porque não trabalhar na chamada grande mídia e me dedicar à academia? Afinal, apesar de ser repórter de TV ainda no último período da graduação, o ensino superior sempre me interessou. Além das atividades de pesquisa e monitoria, tinha a referência inspiradora de uma tia professora de serviço social. Assim, minha expectativa era fazer o mestrado e continuar trabalhando em TV. Esse interesse era conhecido pela direção de jornalismo da TV Tribuna quando me convidou para implantar o projeto Brasília na Tribuna. Desta forma seria possível aliar o trabalho em TV com as aulas no mestrado da UnB. Durante um ano e meio morei em Brasília e fui responsável pela pauta, reportagem, edição e apresentação de um programa diário de cinco minutos sobre o ES na Capital Federal, transmitido na época entre o Tribuna Notícias e o TJ Brasil. Para viabilizar o mestrado concentrei a realização dos créditos entre março de 96 e fevereiro de 97, quando retornei a Vitória. Trabalhando com um certo grau de autonomia em Brasília e instigada pelas reflexões e aprofundamentos do mestrado, resolvi deixar o trabalho na grande mídia para me dedicar à pesquisa da dissertação. Apesar de ter saído da TV em março, logo me envolvi na produção de um jornal institucional, na Assessoria de Comunicação da Viação Águia Branca e em seguida comecei a dar aulas na Faesa. Com isso, o término do mestrado foi adiado para março de 1999. Em 2000, quando comecei as aulas do doutorado, decidi que merecia a chance de me dedicar e aproveitar mais o curso, e consegui um afastamento da faculdade. Nesse período tive mais clareza de que, para realizar um trabalho mais aprofundado na universidade, as experiências do fazer profissional deveriam ser restritas, sob pena de ficar na superfície tanto como professora quanto como repórter . Hoje, como professora adjunto da UFJF, edito uma revista online, mas como atividade de desenvolvimento laboratorial.
De um ponto de vista concreto, qual a influência que o jornalista pode ter na “transformação do mundo”?
As teorias da comunicação nos ensinam a fugir de verbos como manipular, persuadir e influenciar na análise dos meios e/ou de seus efeitos. Por outro lado, creio que o jornalismo tem uma função social importante: a produção social de conhecimento, e ainda sua difusão. Ao informar/ formar os cidadãos de forma competente os jornalistas contribuiriam para a redução da desigualdade social (no que diz respeito ao acesso ao conhecimento) e, dessa forma, auxiliariam na constituição de uma sociedade mais democrática e cidadã.
Quais críticas a senhora faria ao curso e, mesmo longe, quais as evoluções que percebe desde quando se formou até hoje?
Não conheço o último currículo da Ufes e por isso não teria condições de avaliar. Na minha época a estrutura era de uma espécie de Ciclo Básico, em que o aluno só tinha contato com o jornalismo propriamente dito entre o terceiro e o quarto período. Como professora acho isso ruim, por isso vejo com preocupação esse aspecto da proposta de Reforma Universitária (que prevê a organização do curso nesse antigo formato, agora com dois anos de básico e dois de específico). Além disso, acho que merece destaque o fato de que na época havia apenas uma disciplina em que, dependendo da abordagem do professor, era possível ter acesso a formação na área de assessoria, um mercado ainda em expansão.
Quais as mudanças do mercado de trabalho do jornalismo em relação ao ano em que se formou e hoje? Que perspectivas podem ter os recém-graduados diante de tantos enxugamentos pelas editorias?
Em 1993, quando me formei, havia mais espaço no mercado de trabalho aí do ES. Na época só a Ufes formava jornalistas . Hoje há esse aviltamento do mercado. Por outro lado há novas alternativas, com a criação de mídias diferenciadas, que podem ser espaço para os recém-formados (assessoria, TV por assinatura, jornalismo sindical etc).
Há a possibilidade dos veículos de comunicação se despolarizarem do eixo Rio-São Paulo e não somente abranger o país, como também tratar de outras realidades que existem no Brasil?
Acredito na perspectiva do jornalismo regional, até porque há uma expectativa do público por receber a informação mais próxima. Apesar disso, no quadro de enxugamento de redações, vemos o avanço do espaço das chamadas agências de notícias, e a produção de um jornalismo sem grandes variações. Meu marido(Jorge Felz), também formado na Ufes, concluiu o mestrado dele na Umesp (dissertação intitulada Fotojornalismo na web) e entre os resultados de sua pesquisa chegou à constatação de que 43% das imagens veiculadas em nossos webjornais são produzidas por agências de notícias e 38% não tem crédito ou são distribuídas pelas assessorias.
Nas discussões que temos na universidade a respeito da influência que os veículos de comunicação têm na opinião pública, é comum se falar que a sociedade é facilmente manobrada pelos órgãos de imprensa. Os exemplos mais citados remetem às ações da Globo. Como você avalia essa idéia de “manipulação pública”?
Não concordo com essa visão que confere um poder extraordinário aos chamados meios de comunicação de massa. Até porque as mazelas do produto oferecido provocaram ao longo dos anos uma queda na credibilidade da mídia, e do jornalismo de forma mais específica. Por outro lado é inegável o fato de que o fazer jornalístico implica em uma responsabilidade social muito grande. Afinal, como representantes da população, com autorização para buscar/ elaborar as informações mais relevantes e verdadeiras, é preciso honrar nosso “mandato”.
para FALAR: deixe seu comentário ou escreva para ideias.net@gmail.com. Telefone: (27) 81192056
De que maneira a universidade contribuiu em sua formação profissional?
O contato com o ambiente universitário oferece oportunidade de crescimento em todos os níveis, desde que a pessoa tenha interesse em estabelecer trocas e se aprofundar nos estudos. Talvez por isso tenha optado por retornar à universidade e me dedicar exclusivamente a ela. Durante minha experiência como estudante também tive oportunidade de atuar em projetos de extensão, de monitoria e de iniciação científica. Dizer exatamente o que permanece, com a precisão exigida de um jornalista, é um desafio ao qual não me arrisco. Apesar disso é fundamental destacar que durante a graduação tomei contato com outras possibilidades do fazer jornalístico fora das redações.
Como surgiu o seu interesse por jornalismo?
Sou filha de jornalista e o tal ditado popular sempre foi uma espécie de indicativo do caminho a seguir. Apesar disso fiz o segundo grau técnico em Eletrotécnica (na então ETFES) e durante os dois primeiros anos do curso acreditei que me tornaria engenheira. Mas, com o final do curso técnico e o contato com mais disciplinas específicas, vi que aquilo não era para mim. Procurei então os cursos que despertavam meu interesse e fiquei dividida entre direito e jornalismo até o último dia da inscrição. Nessa época, pesavam contra a escolha pela comunicação as decepções profissionais percebidas no cotidiano de meu pai e as limitações de ganho financeiro. Mas no final não deu outra, optei por jornalismo e me considero uma pessoa profissionalmente realizada.
São poucos os que escolheram a carreira acadêmica e menor ainda é o número dos que fizeram doutorado em comunicação. O que a motivou a escolher uma sala de aula e não uma sala de redação?
Na verdade durante muito tempo acreditei que não era preciso estabelecer essa cisão. Porque não trabalhar na chamada grande mídia e me dedicar à academia? Afinal, apesar de ser repórter de TV ainda no último período da graduação, o ensino superior sempre me interessou. Além das atividades de pesquisa e monitoria, tinha a referência inspiradora de uma tia professora de serviço social. Assim, minha expectativa era fazer o mestrado e continuar trabalhando em TV. Esse interesse era conhecido pela direção de jornalismo da TV Tribuna quando me convidou para implantar o projeto Brasília na Tribuna. Desta forma seria possível aliar o trabalho em TV com as aulas no mestrado da UnB. Durante um ano e meio morei em Brasília e fui responsável pela pauta, reportagem, edição e apresentação de um programa diário de cinco minutos sobre o ES na Capital Federal, transmitido na época entre o Tribuna Notícias e o TJ Brasil. Para viabilizar o mestrado concentrei a realização dos créditos entre março de 96 e fevereiro de 97, quando retornei a Vitória. Trabalhando com um certo grau de autonomia em Brasília e instigada pelas reflexões e aprofundamentos do mestrado, resolvi deixar o trabalho na grande mídia para me dedicar à pesquisa da dissertação. Apesar de ter saído da TV em março, logo me envolvi na produção de um jornal institucional, na Assessoria de Comunicação da Viação Águia Branca e em seguida comecei a dar aulas na Faesa. Com isso, o término do mestrado foi adiado para março de 1999. Em 2000, quando comecei as aulas do doutorado, decidi que merecia a chance de me dedicar e aproveitar mais o curso, e consegui um afastamento da faculdade. Nesse período tive mais clareza de que, para realizar um trabalho mais aprofundado na universidade, as experiências do fazer profissional deveriam ser restritas, sob pena de ficar na superfície tanto como professora quanto como repórter . Hoje, como professora adjunto da UFJF, edito uma revista online, mas como atividade de desenvolvimento laboratorial.
De um ponto de vista concreto, qual a influência que o jornalista pode ter na “transformação do mundo”?
As teorias da comunicação nos ensinam a fugir de verbos como manipular, persuadir e influenciar na análise dos meios e/ou de seus efeitos. Por outro lado, creio que o jornalismo tem uma função social importante: a produção social de conhecimento, e ainda sua difusão. Ao informar/ formar os cidadãos de forma competente os jornalistas contribuiriam para a redução da desigualdade social (no que diz respeito ao acesso ao conhecimento) e, dessa forma, auxiliariam na constituição de uma sociedade mais democrática e cidadã.
Quais críticas a senhora faria ao curso e, mesmo longe, quais as evoluções que percebe desde quando se formou até hoje?
Não conheço o último currículo da Ufes e por isso não teria condições de avaliar. Na minha época a estrutura era de uma espécie de Ciclo Básico, em que o aluno só tinha contato com o jornalismo propriamente dito entre o terceiro e o quarto período. Como professora acho isso ruim, por isso vejo com preocupação esse aspecto da proposta de Reforma Universitária (que prevê a organização do curso nesse antigo formato, agora com dois anos de básico e dois de específico). Além disso, acho que merece destaque o fato de que na época havia apenas uma disciplina em que, dependendo da abordagem do professor, era possível ter acesso a formação na área de assessoria, um mercado ainda em expansão.
Quais as mudanças do mercado de trabalho do jornalismo em relação ao ano em que se formou e hoje? Que perspectivas podem ter os recém-graduados diante de tantos enxugamentos pelas editorias?
Em 1993, quando me formei, havia mais espaço no mercado de trabalho aí do ES. Na época só a Ufes formava jornalistas . Hoje há esse aviltamento do mercado. Por outro lado há novas alternativas, com a criação de mídias diferenciadas, que podem ser espaço para os recém-formados (assessoria, TV por assinatura, jornalismo sindical etc).
Há a possibilidade dos veículos de comunicação se despolarizarem do eixo Rio-São Paulo e não somente abranger o país, como também tratar de outras realidades que existem no Brasil?
Acredito na perspectiva do jornalismo regional, até porque há uma expectativa do público por receber a informação mais próxima. Apesar disso, no quadro de enxugamento de redações, vemos o avanço do espaço das chamadas agências de notícias, e a produção de um jornalismo sem grandes variações. Meu marido(Jorge Felz), também formado na Ufes, concluiu o mestrado dele na Umesp (dissertação intitulada Fotojornalismo na web) e entre os resultados de sua pesquisa chegou à constatação de que 43% das imagens veiculadas em nossos webjornais são produzidas por agências de notícias e 38% não tem crédito ou são distribuídas pelas assessorias.
Nas discussões que temos na universidade a respeito da influência que os veículos de comunicação têm na opinião pública, é comum se falar que a sociedade é facilmente manobrada pelos órgãos de imprensa. Os exemplos mais citados remetem às ações da Globo. Como você avalia essa idéia de “manipulação pública”?
Não concordo com essa visão que confere um poder extraordinário aos chamados meios de comunicação de massa. Até porque as mazelas do produto oferecido provocaram ao longo dos anos uma queda na credibilidade da mídia, e do jornalismo de forma mais específica. Por outro lado é inegável o fato de que o fazer jornalístico implica em uma responsabilidade social muito grande. Afinal, como representantes da população, com autorização para buscar/ elaborar as informações mais relevantes e verdadeiras, é preciso honrar nosso “mandato”.
para FALAR: deixe seu comentário ou escreva para ideias.net@gmail.com. Telefone: (27) 81192056

2 Comments:
Isso aí, Ezequiel, Parabéns.
Continue com o blog.
Gostei.
Parabéns!!! Você merece tudo de bom!! espero que você cresça sempre!! Torço muito por você!! Continue sempre esta pessoa maravilhosa de sempre........
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