Quarta-feira, Junho 29, 2005

falam os ex-alunos que se tornaram doutores


Em 2004, o curso de comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo estreou um novo currículo. Como parte dessa mudança a disciplina laboratório de jornalismo impresso foi antecipado para os estudantes do 3º período, antes era no 7º. Criamos um novo jornal o no entanto, em seguida tive a idéia de usar esse espaço para publicar as matérias que irei fazendo, não somente para o jornal, como também aquelas que forem surgindo durante a graduação.
Essa primeira matéria faz parte de uma série de 3 entrevistas que fizemos por email e messenger com ex-alunos de jornalismo da Ufes e que agora têm doutorado em comunicação. O primeiro entrevistado é Giovandro Ferreira formado em 1984 e hoje é professor na Universidade Federal da Bahia.
por Davi gentilli, Ezequiel Vieira e Gabriely Sant'Ana

1. Qual a contribuição que a universidade teve na sua formação profissional?
Antes de responder esta pergunta, preciso esclarecer minha situação na época de estudante da UFES. Eu era, igualmente, estudante em uma outra escola. Cursei Comunicação e ao mesmo tempo Filosofia e depois destes dois curso iniciei também uma outra graduação, Teologia. Logo, é difícil traçar uma linha sobre a contribuição destes vários espaços. Porém, lembro-me bem que a UFES tinha um curso precário, no tocante à sua infraestrutura, mas o ambiente era muito vivo. Estamos nos anos 80, com a redemocratização do país e eu era engajado no movimento estudantil, fui da diretoria do C.A. Mais tarde priorizei o movimento popular, na periferia de Vitória e a militância no Partido dos Trabalhadores. Naqueles quatro anos de curso, porém, fui um aluno como um outro qualquer, que se interessou em aproveitar as possibilidades que o ambiente universitário oferecia na ocasião; participação política e acadêmica. Além do movimento estudantil, participava de grupos de estudo na Comunicação e no Departamento de Filosofia, onde eu era monitor de umas de suas disciplinas junto com o Professor João Pedro Aguiar. Lembro-me de dois grupos de estudos que fiz parte: na Comunicação sobre Althusser, que estava bastante em voga, e sobre Gadamer na Filosofia. Existia um ambiente de curiosidade intelectual na UFES e eu tentei me inserir neste universo.

2. Como surgiu o seu interesse por jornalismo? Chegou a pensar em fazer outra graduação?
O interesse pelo Jornalismo surgiu pela falta de clareza que eu tinha acerca do meu futuro profissional. Sempre gostei muito de História, Economia, Comunicação e outros cursos considerados da área 3, quer dizer, área de Humanidades. Meu primeiro vestibular foi para Economia, fiquei reprovado. Sai, então, de Fundão e vim fazer um cursinho intensivo. Havia feito, até então, toda minha formação em escola pública. Na minha indecisão, pensei da seguinte maneira. Farei Jornalismo, pois ele me oferece um leque de opções. Posso trabalhar no domínio da política, da cultura, da economia e diversas outras domínios de interesse. Na verdade, minha opção pelo Jornalismo foi fruto de minhas incertezas profissionais. Acabei sendo professor do núcleo duro desta área: Teorias do Jornalismo, Teorias da Comunicação, entre outras.

3. São poucos os que escolheram a carreira acadêmica e menor ainda é o número daqueles que fizeram doutorado em comunicação (pelo menos em relação aos formados pela Ufes). O que o motivou a escolher uma sala de aula e uma sala de redação?
As motivações mais profundas que guiam nossas vidas são sempre difíceis de discerni-las. Penso, no entanto, que tive algumas influências explícitas. Meus pais trabalhavam nas escolas que fiz o primeiro e segundo graus. Não sabia bem se nossa casa era extensão da escola, ou vice-versa, se a escola era extensão de nossa casa. Além disso, sempre tive uma boa relação, na minha época de estudante, com meus professores. Tenho uma boa lembrança de meu professor de hebraico e grego, entre outras disciplinas (Antigo Testamento, Pentateuco...), que falava 8 línguas e tinha uma curiosidade intelectual bem aguçada. Ele se chamava Antonio Lute, era holandês, e sempre me dizia: "não sou especialista em nada, mas você será. Escolha uma de suas áreas (Filosofia, Comunicação ou Teologia) e siga em frente e faça um estudo aprofundado". Escolhi Comunicação e eu guardo uma saudável lembrança deste professor. Ele foi uma espécie de anjo da guarda, aquelas pessoas boas que passam pelas nossas vidas. Todas estas influências devem também ser somadas ao meu passado de seminarista. Talvez tenha deslocado meu ímpeto missionário que desenvolvi ao longo dos anos na Igreja Católica para o ambiente acadêmico. Faço parte daquelas pessoas (ou daquelas poucas pessoas) que fazem o que gostam. E acima de tudo, esta é uma atividade que se sustenta quando você acredita no seu crescimento e no crescimento do outro. O ensino (pesquisa e extensão) é, sobretudo, um eterno investimento em pessoas. Como dizia Cora Coralina "feliz daquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina". O cotidiano do professor vai ou deve ir mesmo nesta direção.

4. Quando somos perguntados sobre o que esperamos do jornalismo, em linhas gerais se tem a resposta de que se quer “mudar o mundo”. Mas quando se está em um trabalho muitos se esquecem de toda a base ética e teórica que tiveram, “pois, afinal, se está em uma considerável estrutura prática”, qual a sua visão a respeito?
Toda profissão vive este dilema, este desequilíbrio entre seus ideais e o seu dia-a-dia. Este descompasso tento ver como um aspecto saudável da profissão. Digo sempre, ainda bem que guardamos certos ideais, que podem ajudar a melhorar certas aberrações do mundo e da atividade profissional. Não penso, no caso específico da nossa profissão, como Honoré Balzac que dizia "se a imprensa não existisse, era preciso, sobretudo, não inventá-la". Ele viveu numa época cheia de mazelas do campo de produção jornalístico, como também de outros setores da sociedade francesa. Vejo, portanto, alguns avanços no domínio do jornalismo, mesmo que tais avanços são conquistados às duras penas, e muitas vezes, lentamente. Vejam bem, não faz muito tempo e víamos jornalistas que cobriam uma determinada instituição (Assembléia Legislativa, Câmara Municipal...) com um salário extra, destes órgãos que eram cobertos por eles. Hoje, ficamos indignados com tal atitude. É bem verdade que temos outras aberrações hoje em dia (denuncismo, tráfico de influência, preconceitos sociais, raciais...), sem falar em certos contextos com implicações econômicas que são danosas a atividade jornalística, como por exemplo, nos EUA, onde certos jornais de referência estão sendo anexados a grandes grupos econômicos, como uma espécie de apêndice de tais grupos. Isso gerou até uma publicação que já foi traduzida em português (Os elementos do Jornalismo de Bill Kovach & Tom Rosenstiel). Temos, então, de continuar o combate via sindicato da categoria, ong's por um jornalismo cada vez mais cidadão, público, que ajude humanizar nossa sociedade. A universidade tem um papel importante nesta investida. Podemos melhor teorizar sobre as noções de jornalismo público e ajudar os alunos a repensar de maneira responsável a elaboração e apuração de pautas e tantas outras iniciativas que nos competem. Ultimamente, tenho provocado meus alunos da graduação e da pós-graduação sobre a noção de qualidade total na cobertura jornalística. Fala-se muito em qualidade total para serviços e produtos em geral. Por que não indagamos também sobre os critérios de uma espécie de qualidade total da cobertura jornalística sobre educação, saúde, segurança... Acredito que aí se possa explorar um filão interessante que poderá nutrir bem a relação entre os ideais que norteiam a atividade jornalística e seu cotidiano.

5. De um ponto de vista mais concreto, qual a influência que o jornalista pode ter na “transformação do mundo” ?
De uma certa maneira já venho respondendo por tabela esta questão. A visão de "transformação do mundo" no jornalismo tem a ver com a teoria social que utilizamos para compreender a realidade, com a ética que permeia nossas ações e a leitura que fazemos sobre o papel do jornalismo. Se adotarmos, em relação a esta última, a visão do teórico Walter Lippmann, podemos classificar o jornalismo através de várias etapas históricas: monopólio e porta-voz do governo, controle dos grupos e partidos políticos, atividades comercial com forte ligação com seus leitores, o que fez ele estar, nesta última fase, sob a égide da busca consciente da objetividade dos fatos. Hoje, as discussões seguem um outro curso, não tanto se esmerando sobre a objetividade, mas buscando construir em torno da notícia valores que alicerçam a cidadania, a humanização da sociedade, a abertura para as várias visões sobre um determinado fato e não somente quem é a favor ou contra, aquela velha perspectiva dicotômica que se passava por objetividade. Nesta visão tem se criado prêmios e concursos sobre a atividade jornalística - Prêmio Esso, Abrinq e tantos outros ligados a sindicatos e associações. Penso que devemos trabalhar com a noção de planejamento em cobertura jornalística das políticas públicas, que milhões de pessoas deste país dependem delas. Nós jornalistas somos cúmplices pela nossa desorganização da ineficiência dos governantes. Observem a cobertura do sistema prisional, ela é um horror. Só interessa falar de prisões quando há alguma rebelião. Qual foi a proposta dos atuais governantes para o setor? O que se fez nestes primeiros anos de gestão? Quais foram às medidas adotadas após as primeiras rebeliões?... Pensemos agora a cobertura sobre segurança em nosso Estado. Há uma inoperância dos governantes, de um lado, e a imprensa se nutrindo de faits divers de outro. A população sendo acuada, violentada, e ainda mais, sendo mal servida de políticas públicas e de informação. Poderemos ter inúmeros outros exemplos de domínios de políticas públicas e a necessidade de planejamento do jornalismo, para que ele seja realmente um direito básico do cidadão, numa sociedade constantemente qualificada da comunicação, da informação. Vejo aí um bom caminho para discutirmos concretamente a transformação da sociedade e da atividade jornalística.

6. Pelo já dito e pelo que aparece na página da Ufba, o senhor dá aula de Teorias do Jornalismo. O senhor já teve experiência profissional em meios de comunicação e, caso contrário, como é dar aula sobre assuntos que exigem exemplos mais técnicos?
Já sim, apesar de ter dedicado mais tempo de minha vida a academia. Quando estudante ajudava no Departamento de Comunicação da Arquidiocese de Vitória. Fazíamos diferentes modalidades de publicações que eram usadas por grupos de mulheres da periferia, movimento negro, grupos de operários... Foi uma experiência rica no tocante à comunicação e ao jornalismo em geral, e à comunicação popular em particular. Ao terminar o curso, fui editor-chefe do Jornal da Arquidiocese. Fui, igualmente, o correspondente (free-lance) no Espírito Santo do jornal Opinião, do Estado de Minas Gerais. Quando havia sido chamado para trabalhar no jornal A Tribuna, na sua reabertura em 1987, ganhei uma bolsa para estudar na França. Entre o trabalho no Jornal A Tribuna e a oportunidade de estudar fora, optei então pela minha formação acadêmica.

7. Quais críticas o senhor faria ao curso e, mesmo longe, quais as evoluções que percebe desde quando se formou até hoje?
É difícil de longe, depois de alguns anos fora, tecer alguns comentários sobre o curso de Jornalismo da UFES. Conheço a maioria ou quase todos seus professores. Porém, não conheço o que foi planejado nos últimos anos, quais são as prioridades do Departamento... Fica, então, difícil abordar tal tema sem este necessário acompanhamento.

8. Como jornalista com respaldo acadêmico de que maneira o senhor avalia a situação dos jornalistas recém-formados?
Sou alguém otimista sobre os novos jornalistas. Vejo que, grosso modo, os cursos têm sido melhores do que em meu tempo, na década de 80. Isso não invalida novas reivindicações necessárias para se almejar sempre a excelência no ensino superior. Penso que as novas gerações têm usufruído uma melhor infra-estrutura do curso de Comunicação. As discussões são menos maniqueístas em relação ao tempo que em eu fui aluno na UFES. Os professores têm buscado fazer mestrado, doutorado... Tudo isso vai mudando ao longo do tempo. No entanto, deve-se, enquanto instituição, ser mais agressiva, hoje em dia, no tocante à pesquisa, sobretudo, ter projetos e planejamentos nas áreas fins da universidade. Acredito cada vez mais que serão os alunos que farão a universidade sair de um certo marasmo, serão eles que ajudarão a universidade ser desprivatizada de certos guetos e grupos distantes dos verdadeiros objetivos da universidade. Este tipo de intervenção se tornou necessária nas várias universidades públicas brasileiras.

9. Quais as mudanças do mercado de trabalho do jornalismo em relação à época em que se formou e hoje? Que perspectivas podem ter os recém-graduados diante de tantos enxugamentos pelas editorias?
A profissão de jornalista teve uma implosão nas últimas décadas. Há grandes disparidades nas atividades de vários profissionais que se consideram jornalistas. Qual a relação entre um jornalista da revista Caras e um jornalista do Estado de São Paulo? Da revista Carta Capital e as inúmeras revistas dedicadas aos adolescentes, revistas masculinas, revistas femininas... Todos esses profissionais se consideram jornalistas. Precisamos refazer, então, a cartografia este novo perfil da profissão. Isso sem falar que a maioria dos recém-formados não vai mais para as redações. Eles são chamados para as assessorias de comunicação e áreas afins quando não em áreas distantes de sua formação. Estamos vivendo num contexto de baixo índice de empregabilidade e as dificuldades maiores são daqueles que estão chegando ao mercado de trabalho (os recém-formados), mas também daqueles que têm uma baixa formação, ou então, aqueles que já ultrapassaram uma certa idade. Em relação aos recém-graduados é importante a universidade ter uma visão mais clara das tendências da profissão, assim pode-se repensar os cursos de jornalismo e ajudar a uma melhor formação, e por conseguinte, uma inserção no mercado de trabalho.

10. Há a possibilidade dos veículos de comunicação se despolarizarem do eixo Rio-São Paulo e não somente abranger o país, como também tratar de outras realidades que existem no Brasil?
Esta é uma luta que deveria mobilizar grande parte da sociedade. Uma ação importante se encontra ao nível de mudança da legislação e já existe antiprojeto de lei a respeito no Congresso. Pode-se estabelecer uma porcentagem maior do jornalismo televisado local em relação ao nacional, assim como da programação local em relação à programação da TV oriunda do eixo Rio-São Paulo. São interessantes as pesquisas sobre as notícias locais que são veiculadas em rede, como se diz no jargão jornalístico, quer dizer, ao nível da rede nacional. O Espírito Santo está se tornando um lugar por excelência de crime e corrupção, assim como o nordeste foi, durante muito tempo, sinônimo de miséria e seca. A polarização pode também ser detectada ao nível da imprensa escrita, é que não temos jornais nacionais no Brasil. O que temos são jornais regionais que são vendidos precariamente ao nível nacional. As experiências de se ter um misto de nacional e local num mesmo jornal não vingou em nosso país. Tivemos algumas experiências no Brasil com Carlos Lacerda, mais recentemente com a Gazeta Mercantil, mas foram experiências que não tiveram grande fôlego, infelizmente. A polarização pode, igualmente, ser observada com a imprensa regional. Eles são jornais basicamente da aglomeração urbano de onde estão implantados, apesar de se auto-intitularem estaduais. Vejam o conteúdo de A Gazeta, A tribuna e Noticia Agora. Ele é nacional, ou então, da aglomeração de Vitória, em especial, do município de Vitória. O interior é desprovido de cobertura regular, exceto umas poucas cidades. Logo, temos uma distorção nacional em relação ao regional e do regional em relação ao local. Acredito que as recentes discussões sobre comunicação comunitárias podem ajudar nesta assimetria mediática.

11. Nas discussões que temos na universidade a respeito da influência que os veículos de comunicação têm na opinião pública, é comum se falar que a sociedade é facilmente manobrada pelos órgãos de imprensa. Os exemplos mais citados remetem às ações da Globo. Como o senhor avalia essa idéia de “manipulação pública” ?
Esta é uma discussão histórica nas teorias do jornalismo, e sobretudo, nas teorias da comunicação. Atravessamos o século XX nos perguntando: o que os meios de comunicação fazem com a sociedade e com as pessoas? Por que as notícias são como são? As diferentes respostas foram tributárias de teorias sociais que davam caução ao modelo comunicativo. Pensamos, ao longo deste tempo, nas ações dos meios de comunicação da manipulação, passando pela persuasão e pela influência. Todo este percurso deixou as teorias da comunicação contemporâneas com as marcas desta história. Penso que uma visão conspiratória dos meios de comunicação esteja em baixa no mercado das teorias, assim como aquelas que vêem a recepção num lugar de passividade. Porém, os meios de comunicação vão sempre propor e a recepção vai dispor, ficando para esta última aceitar a proposta, ou então, mudar de veículo. Esta opção ficará mais concreta se a sociedade tiver mais interferência sobre a paisagem mediática de nosso país. Aí que vejo com otimismo movimentos comunitários ligados à radiodifusão entre outras. Vejo também o comportamento da recepção tem a ver com as ações dos meios, mas ele é fortemente marcado pelo cotidiano das pessoas (ambiente de moradia, trabalho, lazer, educação...). Os estudos que relacionam média e violência têm nos ajudados a melhor compreender a relação entre produção e recepção. A UNESCO tem publicado bons estudos sobre este tema, principalmente relacionando média, criança e violência.

12. Boa parte dos que se formam ficam na região em que estudaram. Quais motivações o levaram a escolher a Bahia para trabalhar?
Minha opção de vir para Bahia esteve, inicialmente, ligada à minha vida pessoal. Porém, a mudança de ares no ambiente de trabalho ajuda também a melhorar, muitas vezes, nosso dia-a-dia, como foi o meu caso. Fica, portanto, a saudade de tantos amigos que deixei no Espírito Santo, a gratidão a tantas boas pessoas, entre elas, colegas e alunos que conheci e convivi na UFES, além de minha família (pais e irmãos) que estão todos no Espírito Santo.